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O Pico do Lago abandonado

        Roberto, o físico e Henrique, o filósofo, decidiram se encontrar novamente, dessa vez, em um ambiente mais próximo da natureza. Henrique conhecia um lugar, afastado da cidade, onde ele costumava ir no seu tempo de faculdade para estudar e refletir. Roberto sugeriu que levassem algo para comer, já que vão ficar afastados de lanchonetes, pizzarias e tudo mais.

    O lugar era um lago rodeado de vegetação que era usado para pescaria décadas atrás. Havia três cabanas abandonadas em pontos diferentes do lago. Uma, ao que parecia, era para concerto de barcos. Havia três no lugar em péssimo estado por conta do tempo e um deles tinha algumas ferramentas dentro. As outras duas cabanas poderiam ser vendas ou residências, mas já estavam irreconhecíveis. Uma ventania mais forte poderia derrubá-las. O ambiente tinha um ar assombroso e encantador ao mesmo tempo, em uma palavra, místico. Era isolado e abandonado e os dois não sabiam o motivo, sabiam apenas que era assim à décadas, mas àquela hora, iluminado pelo sol das quatro da tarde e com algumas nuvens no céu, com um vento suave que fazia a vegetação ao redor dançar enquanto os próprios pássaros dançavam no céu, era o momento perfeito para enrolar um baseado.

    Rick, como é chamado, não ia lá pra estudar e refletir... Sóbrio. Beto nunca tinha feito uso da planta antes mas mas na faculdade era rodeado de pessoas que usavam, o que o deixou curioso. Depois de uma breve conversa sobre os efeitos do uso recreativo da planta e após Rick terminar de enrolar o baseado, eles entraram no debate sobre sobre os impactos políticos da proibição:

        - Mas esses efeitos não são nada demais se for propagada a educação sobre a planta. Pelo que você me falou, a proibição acontece só por preconceito e interesses políticos. 

        - Exatamente! A maconha foi proibida nos EUA por questões raciais e políticas e alguns outros países seguiram apenas por eles serem uma potência, eu diria. O que mais me deixa indignado é o fato de a maior parte da sociedade só aceitar o estigma sobre a planta sem nem buscar o mínimo de informação. Eu conheci uma senhora que nem sequer sabia que maconha era uma planta, eu fiquei possesso na hora. - disse Rick enquanto riscava o isqueiro.

        - Mas entenda que não é culpa dela.

        - Sim, eu entendo, mas isso revela uma falha em como nosso mundo funciona. A cannabis, que pode revolucionar a medicina, a indústria, as relações sociais e até o meio ambiente, é proibida por preconceito e sua proibição é mantida pela desinformação. Que tipo de sociedade estamos criando? - indagou Rick passando o baseado.

    Essa conversa continuou pelos próximos minutos enquanto fumavam, até o momento em que o baseado apagou e eles ficaram alguns momentos em silêncio, apenas admirando a paisagem. Eles estavam sentados em um banco de madeira próximo à cabana de concerto, onde tinham vista para as outras duas cabanas que estavam do outro lado do lago, uma mais à direita e outra ao centro do campo de visão. Mais à esquerda havia uma vegetação alta que se movia com o vento e fazia um som agradável e relaxante.

     Já bem chapado, o Filósofo perguntou ao Físico:

        - Tenho uma pergunta pra você, que estuda essas coisas, o que acha que aconteceu antes do big bang?

        - Bom, o big bang foi o inicio de tudo, do tempo e até da luz, tudo o que a gente sabe vem da luz que conseguimos observar e ainda não tem como saber o que aconteceu antes, talvez não tenha acontecido nada. - respondeu.

        - Eu sei, eu sei, mas o que VOCÊ acha? Não é possível que você nunca tenha imaginado alguma teoria maluca sobre. A gente tá chapado, amigo, suba na nuvem verde e vamos teorizar algo aqui e agora!

        - Tá bom, tá bom - soltou uma risada - eu confesso que já me deixei levar por um pensamento sobre isso, tenho até uma pequena dissertação salva no computador. - disse Beto um pouco tímido

        - Sério?! Agora você vai ter que falar sobre. Me encante! - disse o Rick abrindo uma vasilha onde ele trouxe fatias de torta.

        - É algo mais lúdico do que científico - falou enquanto pegava uma fatia de torta oferecida pelo Filósofo - como diz a teoria já existente, ao final do universo, tudo chegará ao estado máximo de entropia e o universo vai esfriar resultando, em poucas palavras, num vazio infinito, estático e frio. É aí que a minha teoria começa. Na teoria do big bang, toda a matéria do universo estava condensada num único ponto menor que a cabeça de um alfinete que se expandiu, não explodiu, em anos-luz de diâmetro em alguns segundos. Na minha dissertação eu argumento que, antes dessa inflação, o que havia era o final do universo anterior; considerando a propriedade não-local do tecido espaço-tempo devido ao efeito do emaranhamento quântico, todos os pontos do universo seriam o centro do universo. A propriedade quadri-dimensional, que buscamos hoje em dia para unir gravidade e física quântica, talvez seja essa: o tecido espaço-tempo une todos os pontos do universo em um "espaço não-local". Nesse caso, toda a matéria, que antes estava uniformemente distribuída, se converte gradativamente em energia para dar "carregar" o novo reinicio num ponto, uma partícula que irá colapsar junto com o próprio espaço. Isso respeita a lei de conservação de energia. O resto acontece como já sabemos, mas, obviamente, não exatamente do mesmo jeito. Eu resumi bastante, a propósito. - conclui sorrindo e claramente contendo sua empolgação.

        - Isso é incrível! - exclama o Filósofo com alegria - com o pouco que sei de sua área eu consegui entender o que você quis dizer e até que faz sentido!

        - Qualquer coisa deve fazer sentido quando se está chapado, meu amigo. - diz o Físico.

        - Não diga isso! Olha, considerando que até os elementos mais leves da tabela periódica são constituídos de partes menores e essas mesmas partes constituídas, talvez, de cordas de energia vibrando, é aceitável considerar a dissipação da energia da matéria para um ponto único onde tudo será novamente fundamentado. O ponto menor que a cabeça de um alfinete com certeza não conteria toda a matéria do universo como a conhecemos hoje, essa matéria teria de estar como energia, assim como Einstein propôs com E=MC²: massa e energia são a mesma coisa. Mas só massa ocupa espaço, energia não tem, necessariamente, uma localidade.

        - Caralho! Você realmente entendeu! Mas, ainda assim, essa teoria tem um problema. Ainda é preciso unir Gravitação e Física Quântica e esse é o maior desafio da atualidade.

        - Você já tentou interpretar a matéria de forma não-científica? - Rick perguntou com cara de quem ia aprontar.

        - Como assim? - perguntou confuso.

        - Nós, humanos, somos feitos de matéria e nós temos nossas manias. Se a gente considerar o Princípio Hermético da Correspondência "O que está acima é como o que está em baixo. e o que está em baixo é como o que está acima." Dá pra brincar um pouco. Todo ser humano gosta de ter seu próprio espaço para desfrutar como quiser. Um átomo tem uma nuvem de probabilidades de onde o elétron pode estar em volta dele. Se a gente viajar bastante e considerar que o átomo tem algum tipo de consciência ou vontade, a gente pode dizer que a gravidade é o resultado dos átomos da matéria puxando espaço para si, já que o efeito é a distorção do tecido espaço-tempo.

    O Físico ficou pensativo uns instantes:

        - Isso estranhamente faz sentido - ele ri e continua - Mas coloca outra questão no ar: como provar a consciência ou vontade de um ÁTOMO?! Isso pode revolucionar toda a física ou até todas as áreas do conhecimento, se for possível.

        - A gente pode começar respondendo isso em relação aos humanos e animais, mas antes, vou apertar outro. Hehe. 


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Comentários

  1. Parabéns pelo blog mano! Tá muito lindo e muito bom de ler. Sério! As idéias que você expõe e a forma que você produz cada texto é impressionante!

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