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João e a uva que se mexe

    Eram por volta de quatro da tarde quando João decidiu fazer uma salada de frutas e teve que ir ao mercado comprar. Sua casa fica a dois quarteirões do supermercado onde ia, sempre de bicicleta e a maioria das vezes estava de óculos escuros. 
Indo pro setor das frutas, João passa por um rapaz que lhe chama atenção, por ter um estilo que ele não estava acostumado a ver, escolhendo alguns abacates. O rapaz vestia uma calça cargo de um tom escuro de verde com uma regata e chapéu preto, uma corrente de prata e anguns anéis cheios de desenhos. Ele tinha várias tatuagens, a quantidade chamou bastante a atenção de João, que não tinha nenhuma.

Prestar atenção num estranho com estilo diferente não vai fazer a salada de frutas ficar pronta, João seguiu para os mamões, pegou alguns kiwis e bananas e estava indo pegar laranjas quando levantou um pouco a cabeça e percebeu o rapaz de antes indo em direção às uvas. Pouco antes de o rapaz alcançar as uvas, um cacho se moveu até sua mão e João achou que estava vendo coisas por estar com muita fome.

João pagou suas compras e seguiu o caminho de casa ainda meio pensativo com o que viu. Como não estava ocupado, decidiu pesquisar se é realmente possível mover coisas com o poder da mente e achou vários artigos sobre magia que lhe diziam que o poder reside dentro de todos aqueles dispostos a despertá-lo. Falavam sobre rituais, sigilos e coisas que, na cabeça de João, eram coisa do demônio. A única prática que escapou desse julgamento foi a da meditação, que ele decidiu aprofundar na pesquisa. Leu que meditar não é parar de pensar e que para realmente meditar é preciso escutar o silêncio:

    - Como assim "escutar o silêncio"?! - João, no momento em que leu.

Desligou o computador em que fazia a pesquisa e decidiu aprender fazendo. É só sentar em silêncio e não fazer nada, fácil! Pensava ele. Mas antes de cinco minutos:

    - Tenho que pagar a conta de luz; eu já dei comida pro gato? Talvez eu deva parar de fumar. É culpa do meu pai, herdei o vício dele; será que a Sara vai para a quela festa? Como aquele cara fez aquilo? Será que meditando vou conseguir fazer também? Mas eu não tô sentindo nada de diferente, só o meu popô doendo; isso tá muito chato! - Murmurava a mente de João.

Levantou de onde estava sentado, pegou um café e uns biscoitos e foi assistir televisão. No meio de um filme ele pegou no sono e acordou quando estava amanhecendo mas voltou a cochilar. Acordou de novo, dessa vez assustado, achando que ia se atrasar para o trabalho, mas era domingo e ele podia dormir até mais tarde.

Pela tarde, João recebe uma mensagem de Pedro perguntando sobre a festa. Ele queria saber que horas eles iriam se encontrar e onde:

    - Vem aqui pra casa 19h que a gente daqui vai pro Salão - Disse João, por mensagem, a Pedro.

Pedro toca a campainha de João às 19:11 e João o atende de toalha e ainda molhado:

    - Você ainda não se arrumou?! - diz Pedro indignado.

    - Se eu te falar que eu cochilei, você acredita? - Brinca João.

    - Se adiante, vá! Eu vou ficar te esperando assistindo TV - diz Pedro caminhando pra dentro da casa - tem cerveja ainda? 

    - Tem duas, vou tomar uma enquanto me arrumo.

João foi para seu quarto com sua cerveja e começou a se vestir. Ele realmente havia cochilado, então estava a um tempo sem comer. Depois de calçar o sapato dentro do quarto ele foi para a cozinha ver o que comer:

    - Vai ter que esperar mais um pouco, eu tô a muito tempo sem comer e vou fazer um lanche agora. - Diz João já mexendo nos armários.

    - A festa vai esquentar mesmo a partir das 20h então fique a vontade, mas eu quero algo também!

João cozinhou umas salsichas e fez um purê e uma salada com a ajuda de Pedro e enquanto eles comiam Pedro comenta:

    - Vindo pra cá eu passei por Sara, ela estava com um cara estranho, todo tatuado e com uns piercings na cara.

Será que era o mesmo cara do mercado? João pensou nisso por um momento, mas devia ser só coincidência:

    - Vai ver é o novo ficante dela. - comenta João

    - Eles estavam vestidos pra festa, lá a gente descobre. E nada de ficar com ciúmes, viu?! - Pedro brinca.

Finalmente chegam ao salão onde vai acontecer a festa. Um espaço em que os personagens do filme Avatar não encostariam no teto nem se esticassem os braços e ficassem na ponta dos pés de tão alto, além de dar a impressão de que cabe um avião cargueiro de tão amplo. Parabéns aos construtores!

A festa foi organizada por alguns amigos de João que tinham a condição financeira de um dono de multinacional. Tudo bem decorado, algumas longas mesas com petiscos e bebidas e um palco de acordo com o tamanho do local. Só era permitida a entrada com o convite e cada convidado podia levar uma pessoa. 

Ao andar pelo local, João e Pedro avistam Sara e seu acompanhante que João reconheceu na hora, era o cara do mercado.

Sara acena para os dois e apresenta o amigo dela logo que se aproximam:

   - Gente, esse é o Nino. Eu conheci ele quando fui pra aquele retiro que falei e a gente se tornou próximos desde então.

Os dois cumprimentam Nino, comentam sobre as tatuagens e piercings dele, sobre o estilo. Nada que deixasse ele desconfortável, pareciam duas crianças conhecendo algo novo:

    - Nino, você tinha algo pra falar com João? - pergunta Sara com cara de quem sabe de algo 

    - Ah sim! João, você não viu errado, a uva se mexeu.

Esse foi o momento em que João duvidou de muita coisa em uma fração muito curta de tempo.

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