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"Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos."

   
    Um dia conversei com um livro e ele me disse que o criador procurou companheiros que fossem filhos de sua esperança e viu que não os poderia encontrar, a não ser que ele mesmo primeiramente os criasse, não entendi a princípio, mas enquanto ele me falava da beatitude involuntária me lembrei de minha infância quando me falavam sobre os demônios do coração, o medo que eu sentia criou uma muralha contra essas ameaças e não permitiu que eles me fizessem mal. Infelizmente, não permitiu, também, que me fizessem nenhum bem.

    Cresci com essa muralha em mim e nenhum demônio apareceu. Comecei a duvidar de sua existência então abri uma brecha na muralha para tentar ver tais demônios, foi então que o primeiro demônio se apresentou:

        - Olá, você! Me chamo Sombra e é um prazer ter seus olhos em mim apesar de tanto tempo. Me acompanha em um passeio?

        - Devo recusar tal proposta. Me foi dito que demônios são os causadores do mal e que não devo me aliar a tais criaturas. Abri uma brecha para que pudesse ver com meus próprios olhos sua existência, já que comecei a duvidar. Agora que sei que são reais, provavelmente o que me foi dito também está correto.

        - Mal? E o que seria o mal? Por favor, elucide-me. - disse a Sombra em tom curioso.

        - Sofrimento humano, assassinatos, fome, miséria. Eu poderia fazer uma lista mas acho que você já compreendeu.

        - Ora, mas essas coisas são causadas pelos próprios humanos. Isso que você diz ser o mal é o resultado da humanidade ignorar as sombras achando que tudo o que é desconhecido é maléfico.

        - O que quer dizer com isso? Os humanos são o mal e vocês são os "mocinhos"? Não me conte piadas, demônio!

        - É raro que um humano abra uma brecha em sua muralha, gostaria de aproveitar essa oportunidade para lhe esclarecer algumas coisas. Poderia ter sua atenção por alguns momentos?

    Estava curioso em relação a essas coisas que nunca me foram devidamente esclarecidas. Por vinte anos sempre me deram certezas e apesar de ter dúvidas sobre elas eu as aceitava. Aquela coisa não parecia ter más intenções, então acenei a cabeça concordando em dar minha atenção ao demônio, mas ainda com a guarda alta:

        - Primeiro, gostaria que você esquecesse o que entende hoje por bem e mal, esses conceitos não se aplicam a realidade do que É. Nós, "demônios", fomos os antigos conselheiros dos humanos, éramos conhecidos como daemons e fazíamos a ponte entre vocês e o Tudo O Que Existe. Por centenas de anos fizemos o trabalho de elevar almas humanas para novos níveis de compreensão, mas um grupo de humanos quis criar uma "verdade" baseada em vontades individuais e nos banir do posto de conselheiros. Convenceram milhares de que nós éramos mensageiros da guerra, da doença, da fome e da morte; que nossos conselhos não deveriam ser levados em consideração pois, caso contrário, a humanidade estaria arruinada. 

        - A quanto tempo isso aconteceu?

        - A mais de dois mil anos, entende o que digo?

        - Sim, mas ainda preciso de mais, tudo isso que você me fala pode ser uma mentira e você pode estar tentando me corromper.

        - Muito bem. Então, permita que eu me apresente devidamente. Eu sou o Daimon responsável por guiar os humanos em sua jornada através daquilo que não conhecem ou não querem ver. Em seu idioma, tenho o nome de Sombra. Caso aceite meu chamado, eu lhe acompanharei pelo tortuoso caminho que existe entre você e a unidade com a existência. 

        - Me tornarei imortal?

        - Sim e não. Assim como todos os humanos, você ainda morrerá, mas ao final da vida de seu corpo, você terá realizado a completude, coisa que, nos últimos tempos, poucos conseguiram. Após tal realização, seu espírito alcançará a imortalidade, a união como o universo, o todo, deus ou como preferir nomear. Não é como o paraíso que você conhece. Eu diria que é mais como se você fizesse parte de um grande rio que flui para todos os lados.

        - Completude? Esse é o propósito da vida? Me foi dito sobre o Grande Propósito, ele existe?

        - O que você chama de Deus não lhe entrega tarefa nenhuma a não ser a de viver da melhor forma que puder, aprendendo e se conectando com O Caminho, que é a vida em si. Pode parecer óbvio para alguns, nem tanto para outros, mas essa é a tarefa, esse é o propósito. É através da disso que você alcançará a completude. O problema sobre a realização dessa tarefa está nos separando neste momento. A muralha que os humanos criam em volta de si mesmos pode até impedir que algum "mal" aconteça, mas também não permite que vocês aprendam a verdade sobre estarem aqui nessa vida. Seu ego precisa, além de desafios, da vontade de superá-los.

        - O que acontecerá caso eu derrube minha muralha? O que acontecerá caso eu aceite ir com você pelo Caminho?

        - Você sentirá dor, todos os tipos de dor. Aprenderá que ela te faz mais forte e aprenderá que algumas dores caminharão com você durante bastante tempo e talvez até o final de sua vida. Aprenderá a aprender e, quando isso acontecer, começará a descobrir a si mesmo. Quando descobrir a si e amar esse ser, só então, você começará a viver. A partir daí, não mais te acompanharei, mas você sempre poderá contar comigo. Mas, devo lembrar, uma vez no Caminho, você não poderá retornar.

     Aceitei o convite da Sombra, entrei no caminho e descobri coisas que jamais imaginei existir. Percebi a não-existência de coisas que sempre achei que fossem reais. Encarei um abismo e vi ele me encarar de volta. A Jornada ainda não terminou e não tenho certeza se um dia irá.



Inspirado nos discursos de Zaratustra*
Frase do titulo é atribuída a Carl G. Jung*

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